Em diferentes momentos da vida, a maioria de nós experimenta um sentimento silencioso, mas profundo, de saudade.
Podemos sentir falta de uma pessoa que já não faz parte do nosso dia a dia, de um lugar que um dia foi casa, ou de uma fase da vida que trazia um sentimento especial de pertencimento. Às vezes essa sensação surge de repente — ao ouvir uma música familiar, ao provar um alimento que traz lembranças do passado ou ao recordar um momento que ainda parece emocionalmente vivo.
Em alguns momentos, esse sentimento também pode vir acompanhado de uma sensação sutil de não pertencer completamente — como se uma parte de nós ainda estivesse em outro lugar, conectada a pessoas, lugares ou momentos que ajudaram a moldar quem somos.
Na abordagem terapêutica chamada Sistemas Familiares Internos (IFS) (Internal Family Systems – IFS), entendemos que a mente é formada por diferentes partes internas, cada uma carregando suas próprias emoções, memórias e experiências.
Quando passamos por mudanças ou perdas na vida, algumas dessas partes podem continuar profundamente ligadas ao que ficou para trás. Uma parte de nós pode permanecer fortemente conectada a uma pessoa, a uma comunidade, a um lugar ou a um período da vida que teve grande significado.
Como essas partes carregam memórias e vínculos emocionais, o sentimento de saudade às vezes pode dar a impressão de que uma parte de nós ainda vive em outro tempo ou em outro lugar — segurando algo que foi profundamente importante.
Essa experiência é profundamente humana. Ela reflete nossa capacidade de criar vínculos, de nos conectar e de amar.
Às vezes, outros pensamentos ou emoções tentam nos proteger desses sentimentos. Eles podem nos incentivar a permanecer ocupados, evitar certas lembranças ou afastar emoções que parecem difíceis demais. Essas partes protetoras geralmente têm boas intenções. Elas estão tentando nos ajudar a seguir em frente e continuar funcionando no dia a dia, mas às vezes também podem dificultar que entremos em contato com o que estamos sentindo.
Na perspectiva do Sistemas Familiares Internos , porém, a saudade em si não é algo que precisa ser eliminada. Muitas vezes ela reflete a profundidade das nossas conexões e a importância das experiências que vivemos.
Quando criamos espaço para reconhecer essas partes e os sentimentos que elas carregam, algo importante pode acontecer. Em vez de lutar contra a saudade ou tentar afastá-la, podemos começar a nos relacionar com ela com mais compaixão e compreensão. Esses sentimentos podem trazer tristeza, mas também carregam amor e memória.
A terapia pode oferecer um espaço de apoio para explorar essas experiências internas. Em vez de tentar silenciar as partes que carregam saudade, o objetivo é compreendê-las e acolhê-las com cuidado.
Com o tempo, quando essas partes se sentem reconhecidas e compreendidas, a intensidade da saudade muitas vezes se torna mais suave. O que permanece, ao lado da ausência do que foi perdido, é também o significado da conexão que existiu.
Nesse sentido, a saudade pode ser entendida não apenas como tristeza ou luto, mas também como um reflexo das relações, dos lugares e das experiências que fizeram parte da nossa história — mesmo quando partes de nós ainda se sentem conectadas a outro tempo, a outro lugar ou a outro sentido de lar.
Rachel Freedland, LMSW